Thursday, June 16, 2011

F-Se! O Meu Ser Humano Favorito Faz Hoje Anos

ROSENCRANTZ, EPISÓDO DRAMÁTICO (INTEGRAL)


Por essa altura eu começara
a treinar a equipa de basket do liceu F. e também
a dirigir o grupo de teatro do liceu F., embora
embora fosse demasiado jovem para qualquer direcção desportiva
e demasiado jovem para qualquer treino artístico
e demasiado incompetente para uma e outro.
Agradava-me o ar a grande da grande cidade
com palmeiras a descer para o rio ruas numerosas
e escadarias íngremes por onde as alcateias
furtivamente alcançavam o alto das colinas,
e o perfume das árvores ao longo da alameda
por onde, manhã cedo, ia de casa ao liceu F.
e, ao fim da tarde, regressava do liceu F., a casa.
No início de setembro comprei "Técnicas de Basket"
numa livraria de campo de ourique e, dias depois,
o clássico "Espaço, Tempo, Arquitectura", porque tinha em vista
ser arquitecto, um dia. No dia seguinte
comprei uma t-shirt de fantástica fantasia
adequada à encenação teatral e ao treino desportivo,
uma t-shirt de fantasia que, infelizmente, dias depois, perdi
na lavandaria automática, entre outra roupa suja.
Na véspera das primeiras aulas fui ao bar Solaris
pensando conseguir a embriaguez adequada à véspera
de um novo destino, ligado para sempre ao teatro e ao basket.
Bebi vodka e anis até deixar de sentir
os olhos nas suas órbitas, olhando espantados
as luzes psico-analíticas, as radiações laser,
as esferas estroboscópicas que apagavam e acendiam
o fantástico desenho da minha t-shirt
acabada de estrear, do bar Solaris. Dei
com G. de pé junto ao balcão do bar Solaris
de cabelo preto, tão curto que se via a fonte
da nuca, onde o perfume animal é mais perfeito.
Aproximei-me de G., ao balcão do Solaris, com
hesitação e, contudo, também com insolência,
com a hesitação e com a insolência de um encenador
jovem e inexperiente ao abrir, pela promeira vez, as folhas
de um célebre drama obscuro. O corpo de G. era sempre
chamado "deslumbrante", desde o dia em que um pintor
das belas-artes na aula de modelo dissera:
"o corpo de G. é deslumbrante". O corpo de G.,
visível, imaginável, na nudez da nuca de G.,
era "deslumbrante". deslumbrava, ao olhá-lo, ao imaginá-lo,
o corpo de G., junto ao balcão, de cabelo preto curto.

Quando G. me deixava acariciar-lhe a nuca a sensação
era "deslumbrante". Humanamente pensei como seria
o contacto tri- ou tetra-dimensional do meu corpo
ou de outro corpo, com o corpo de G., a mistura
do meu corpo ou de outro corpo, com o corpo de G., deitados
possivelmente, na estreita cama do meu quarto estreito
de paredes nuas, a campo de ourique? As mãos
de G., visíveis junto ao balcão do Solaris,
o hálito de G., mais sensível quando ria,
os ombros de G., estroboscopicamente adivinháveis,
estavam diante de mim, acessíveis diante de mim,
junto ao balcão. Sobre um palco, o corpo de G.
era "deslumbrante". Muitas vezes admirava
o "Hamlet" pós-moderno em que G. fazia
Hamlet e Ofélia, em performances "deslumbrantes".
A Ofélia de G., o Hamlet de G., tinham modificado
toda a dramarturgia, a dramarturgia de Shakespeare
e toda a dramaturgia, a hermenêutica de Shakespeare
e toda a hermenêutica. O corpo, deslumbrante, de G.,
transforma toda a cultura, toda a vida do espírito,
primeiro a cultura e a vida do espírito ocidentais,
depois, para sempre, toda a cultura,
toda a vida do espírito, depois, para sempre, toda a vida
de ocidente a oriente. A aparição de G.
nos palcos de Beijing! o diálogo de G. com G.
(acto 3, cena 2) na arena silenciosa de Tucson, Arizona!
a multidão compacta que aguardara, em noite gelada,
o avião que transportava G. às pampas argentinas!,
estavam em todas as memórias, em todos os livros,
e, aos fins de semana, em todos os jornais
com fotografias cada vez mais exactas e perfeitas,
com interpretações cada vez mais exactas e perfeitas, mas
longe, irremediavelmente, do sentido, da concisão
exacta e precisa do Hamlet de G., da Ofélia de G.
noite após noite em todos os palcos do mundo.
O ensino do teatro, das técnicas dramáticas,
a possibilade do ensino do teatro e a possibilidade
do teatro eram outras completamente
desde que G., noite após noite, deslumbrava
as plateias, de ocidente a oriente. Agora
o corpo de G., junto ao balcão do Solaris, revelava
estroboscopicamente a natureza de todas as coisas,
como o corpo de G., no palco, noite após noite revelava
a natuureza de todas as coisas, e a naturalidade
da natureza de todas as coisas, e a natureza
e naturalidade de todas as pessoas humanas
sentadas, em silencioso terror, nas plateias do mundo.
A boca de G. era, naturalmente, maravilhosamente
concisa e perfeita. Em todas as línguas do mundo
a boca de G. revelava as palavras de todas as línguas do mundo
com concisão, com exactidão, revelando, noite após noite,
a natureza das palavras, e a naturalidade
da natureza das palavras. Mais célebre,
mais terrível, mais exacto e conciso do que a boca de G.
e do que o sopro das palavras na boca de G.
era, porém, o silêncio de G., eram, porém, os silêncios de G.,
o silêncio de Hamlet de G. e o silêncio da Ofélia de G.,
dois inteiramente diversos e alheios silêncios cruzando
o silêncio e o terror de todas as pessoas humanas
em todas as plateias do mundo, revelando
o íntimo e último silêncio de todas as pessoas humanas
sentadas, e transformadas, em todas as plateias do mundo.
O corpo "infinito" de G., como dissera o filósofo,
a presença ubíqua do corpo de G., noite após noite,
nos teatros e arenas e estádios de ocidente a oriente,
até de madrugada, até de madrugada
nas televisões e nos cinemas e nos palcos do mundo,
não diminuíram nunca o mistério, a exaltação
do corpo de G., das palavras e do sopro das palavras
na boca de G., no corpo de G., a misteriosa exaltação
de todos os corpos, em todas as plateias do mundo.
Espantar não me espantava, ver agora
o corpo de G. junto ao balcão do Solaris, na véspera
do primeiro treino de basket, da primeira aula de teatro
no liceu F. Naturalmente, os alunos de teatro do liceu F.
teriam jeito para o basket; naturalmente, os alunos de basket
teriam jeito para o teatro!, pensei. Espantar não me espantava
dar com G. ao balcão do Solaris, de cabelo preto e curto
onde melhor se imaginavam o cabelo de Hamlet, o cabelo
de Ofélia. Todas as noites, todas as noites eu arrastava
o corpo de G. para o lado marítimo do cenário,
todas as noite, até de madrugada, eu amava
e traía o corpo de G., em todos os palcos do mundo.
Todas as noites eu amava o corpo de G.
com o amor de Hamlet de G. e com o amor da Ofélia de G.
e com o amor de G. pelo corpo do Hamlet de G.
e com o amor de G. pelo corpo da Ofélia de G.
e com o amor de todas as pessoas humanas
pelo corpo "infinito" de G., em todas as plateias do mundo,
nas palavras do filósofo. Ao balcão do Solaris, agora,
G. bebia vodka e anis, revelava
a natureza dos licores, e a natureza da luz
estroboscopicamente caindo sobre o corpo de G.,
e a natureza de todas as coisas, de todos os seres.
Na memória do corpo de G. havia a memória
de todas as coisas, de todos os seres. Um dia,
no meu estreito quarto, entre paredes nuas,
G. narrara o seu encontro com Sófocles, numa taberna
de Chios(*). Um dia, num camarim de Convent Garden,
G. declamara, para mim somente, poemas japoneses.
Um dia, numa praia de Chipre, G. repetira
os termos exactos de um diálogo com Thomas Bernhard.
Um dia, numa rua de Reno, Nevada, G. revelara
as palavras de Nietzsche, nos últimos dias de Turim.
Não tinha fim a memória do corpo de G., "infinito",
na palavra dos fisósofos. Todas as noites
eu matava e morria o corpo de G., no corpo de G.,
todas as noites o corpo "deslumbrante" de G.
era morte e veneno no meu corpo, e o meu corpo
era veneno e morte no corpo de G.,
o amor e o veneno e a morte no corpo de G.,
o desaparecimento do corpo de G. no veneno e na morte
no meu corpo, no corpo de G., na íntima e última
aparição do corpo de G. em cena, na íntima e última
aparição do corpo de G. no meu corpo. Aproximei-me de G.
com hesitação, com insolência. Todas as noites,
desde a primeira noite até à última noite, eu sabia
o horror e a abjecção do corpo de G. em cena,
o horror cénico, a abjecção cénica do corpo de G.,
a aparição e o desaparecimento, cénicos, do corpo de G.,
todas as noites eu arrastava em cena o corpo de G.
para fora de cena, gritando puta!  filho da mãe!,
envenenado e deslumbrado pelo corpo de G.,
pelo ciúme e pela cólera e pelo esquecimento
do corpo de G. em cena. Agora
encenaria "Ajax", no grupo de teatro do liceu F.. Agora
o ensino simultâneo do teatro e do basket,
a coincidência espacial do ginásio e do palco,
a semelhança plástica dos corpos
quando se movem, e das palavras, semoventes,
transformariam a ideia íntima e última do teatro,
trazendo aos palcos do mundo um novo terror
e serenidade, uma nova ideia nos palcos do mundo.
Cada existência natural, cada coisa naturalmente
separada de si, cada movimento separado
das palavras, seriam silenciosamente revelados. Cada silêncio
seria o silêncio, silenciosamente. A multiplicação
dos actores transformaria a natureza
íntima e última de todos os seres, de todas as coisas
humanas, de todas as pessoas humanas
em todas as plateias do mundo. Agora, contudo,
junto ao balcão do bar Solaris os jovens actores
reunidos em volta do corpo de G. "deslumbrante"
devoravam as palavras de G, devoravam a boca
de G., devoravam o corpo de G. "deslumbrante". Agora,
contudo, o amor e o desejo dos jovens actores
devoravam o corpo de G. "deslumbrante", junto
ao balcão Solaris, na véspera das primeiras aulas
de teatro e de basket. Agora
a morte de G., do corpo de G., a íntima e última
e deslumbrante morte do corpo de G., e da memória
do corpo de G., devoravam o corpo e a ideia e a possibilidade
do teatro. O corpo de G., contudo,
permanece em cena. As árvores inclinam-se
ao vento do cenário. Os jovens actores
transformam a morte de G. no corpo de G., transformam
o corpo de G. na morte de G. no corpo
dos jovens actores. As línguas dos jovens actores
misturam-se às palavras de G., ao corpo de G.
"deslumbrante", à palavra "deslumbrante"
no corpo de G.. Na minha encenação
"Ajax" triunfa nos palcos do mundo!,
no terror e na abjecção dos palcos do mundo.
Vários jovens actores, no papel de Ajax, triunfam
em Tóquio, no Texas, nas pampas argentinas.
Depois, um dia, em digressão
pelos palcos e arenas e estádios do mundo,
conhecemos W., num ginásio de Atlanta. O arremesso de W.
tinha a concisão, a exactidão, o tacto
que me escapara, ao encenar "Ajax". A velocidade
de W., a aparição do corpo de W.
antes do arremesso, escapara-me, ao encenar "Ajax".
A aparição e o desaparecimento da pele de W.
no instante do arremesso, o espírito de W.
no corpo de W., o vigor e a graça do espírito de W.
no corpo viril, feminino, de W., escapara-me,
ao encenar "Ajax". Beijei,
uma a um, os jovens actores; acompanhei W.
ao aeroporto, na véspera de um jogo decisivo.
O corpo de W., a nudez de W.
no espírito de W., comoviam-me, no aeroporto,
na véspera de um jogo decisivo.
No dia seguinte, na primeira aula de teatro, falei
da dramaturgia possível e necessária
depois da morte de G., do corpo de G., da minha
íntima e última recordação de G., outrora,
quando o corpo de G. deslumbrava as plateias do mundo
no terror e no silêncio das plateias do mundo, outrora.
Já tarde, no bar Solaris, a campo de ourique,
bebi vinhos, licores, dancei toda a noite
em concisa e exacta estroboscopia.
Dias depois, desinteressei-me do teatro. As árvores
floriram, ao longo da alameda, a caminho do liceu F.
onde continuei a treinar a equipa de basquet
enquanto lia "Espaço, Tempo, Arquitectura"
à espera de G., que uma vez mais se atrasara
em campo de ourique, na livraria desportiva.



(*) Ion de Chios, ap. Atheneus 13.603e-604d.

in «Quatro Caprichos»,
Assírio & Alvim 1999
pag.s 53 - 62
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Y Sugiro o Post F-se! de 2008 

F-Se! Há coisas que não exagero :) ... fico só aquém ...